Ok, mentira, não sou ela. Eu
nunca tomei uma medida tão drástica quanto esta personagem. Mas ao longo da
minha trajetória, conheci algumas QUASE Hannahs.
A série de TV do Netflix 13
reasons why surgiu com o propósito de repensarmos um pouco nossas
atitudes e experiências, principalmente durante a época do colegial, onde
Bullying pode criar traumas e influenciar na decisão de “resolver nossos problemas de uma vez por todas”. (Para quem não conhece, conta a história de
uma adolescente que cometeu suicídio e deixou fitas contando os treze motivos
pelos quais ela quis se matar.)
Segundo
uma pesquisa publicada na BBC de Portugal, o suicídio já matou mais jovens que
o HIV no mundo todo, principalmente nos países de baixa renda. Apesar das
causas não serem muito estudadas, acredita-se que o bullying pode ser um dos
principais gatilhos que levam os adolescentes a acabarem com
a própria vida. Isso quando não invadem uma escola, armados, e tiram a vida de
outros colegas antes de tirar a sua.
E
quando a situação é mais perto de casa, é mais pessoal, talvez relatar nossaa próprias experiências ajude as pessoas
a se colocarem no lugar das outras, não? Ao menos é o que eu espero conseguir
com este texto.
Aos
seis anos eu me mudei para Montenegro, saindo da capital. Digamos que a
recepção não foi muito boa. Já na primeira série eu sofria ameaças de uma
colega, e de um rapaz da sexta série que adorava chamar a mim e ao meu irmão de
“filhotes de chupa-cabra”. Na época o termo “bullying” não era usado nas
escolas do Brasil, e muitos professores e funcionários faziam vista
grossa com relação a situações de abuso psicológico. Afinal, num educandário de
interior, quem esperava ter que lidar com esse tipo de situação? O colégio simplesmente
não estava preparado, assim como muitas instituições de ensino de muitas
cidades do país. Então, para aquele valentão, o termo não existia, e ele só
estava “brincando” com a gente. Perseguindo-nos na hora da saída da escola,
atirando o casaco do meu irmão no lixo, ameaçando nos bater. Como ainda éramos
crianças, tivemos e “contar para a mamãe” sobre a situação. De que forma poderíamos explicar
como meu irmão ficou com o dedo gigante depois de levar duas picadas de abelha ao
tentar resgatar seu casaco? Resumo da ópera, dona Estela veio a escola e conversou com o valentão,
ameaçando contar para os pais dele sobre o ocorrido, jurando que se ele
encostasse um dedo na gente de novo, se arrependeria pelo resto da vida.
Mas
esse foi apenas um caso solucionado, entre vários. Ao longo do tempo, eu passei
a revidar xingamentos e implicâncias na base do soco.
“Isso
não é coisa de menina”
Talvez
não fosse, mas eu sentia necessidade de fazer um pouco de justiça com minhas
próprias mãos. Até porque, aos 10 anos perdi meu irmão em um acidente, e senti
a necessidade de “me vingar” dos bullyings que ele também sofreu. Foi-se meu
companheiro de luta, e tive que aprender a me defender sozinha. Ninguém
entendia dessa forma. Ninguém nunca entendeu.
Enfim,
ao longo do tempo, era mais divertido para os guris implicarem comigo, pois eu
ficava brava e brigava. Minha mãe pedia para que eu os ignorasse, pois aí
perderia a graça e eles parariam. Só que não era ela lá, no meio daquele
furacão de piadas e xingamentos, era? (E chega a ser irônico como esses
rapazes, quando estavam em grupo agiam como um bando de babuínos bobocas
babando em bando, ou seja, como eles agiam de forma idiota para impressionar
uns aos outros. Mas individualmente, quando se conversa com alguns deles, se
percebia como eram caras legais que só faziam as merdas para tentar se
enquadrar.)
Porém, eventualmente acabei
seguindo as instruções dela, revidei respondendo às piadas com escárnio, e até
fazendo bullying eu mesma. É um círculo vicioso. Todos acabamos sendo perversos
uns com os outros. Cada um tenta compensar de alguma forma seus próprios
problemas. Acabamos julgando os outros, sem perceber que isso lhes dá o direito
de nos julgar também.
Ao longo do ensino médio, eu criei um muro, uma proteção,
e parei de me importar. Nunca tive muitos amigos com quem contar, e talvez isso
faça com que me identifique um pouco com a Hannah. Mas diferente da personagem,
eu era praticamente considerado um ser assexuado, e não sofria piadas com
relação a minha vida pessoal, que era bastante monótona, na verdade.
Mas as outras Hannahs sim.
Outras Hannahs tiveram os nomes arrastados na lama, muitas vezes por conta de
muita fofoca, e pouca verdade. Por conta de alguma bola de neve que ia
aumentando ao longo do ano. Não sei dizer se alguma delas teve um destino tão
trágico quando a fita 12. Espero que não. O que me intriga é pensar que a vida
pessoal dessas garotas de repente virava assunto público, e que elas não tinham
mais direito sobre as próprias escolhas, pois um bando de abutres as rodeavam e
observavam cada movimento, esperando uma vacilada, uma “pegada” errada, para
logo espalharem, atirando aos quatro ventos os apelidos carinhosos de “Puta!”, “Vadia”,
“Corrimão!”, “Rodízio”, “Passadora de rodo!”.
“Eu ouvi dizer que a fulana
se mudou para Porto Alegre porque estava tão mal falada na escola, que não aguentou
ficar aqui”. Essa bela frase era dita entre risos, e seus autores não demonstravam um pingo de preocupação.
Será que eles destruíram tanto o espírito dessa garota que ela se forçou a ir
embora? Ou ela foi por conta do emprego do pai, e outras pessoas deram uma
interpretação livre para situação? Importa agora? Alguém algum dia pediu
desculpas por tratar ela como uma vadia? Por se achar no direito que espalhar
coisas sobre a reputação dela? Se eu espalhei, desculpa! Na época me faltou
empatia, o que é bastante irônico, dado o fato de que eu sofri por outros
motivos, outros apelidos, mas sofri por igual.
Uma vez, aos 14 anos, fui
chamada de lésbica por uma colega, simplesmente porque eu ainda não havia
perdido o “BV”. Depois de formada, ela veio a sair do armário, o que me faz
pensar no quanto ela estava lutando com a própria identidade, e como ela
refletia isso nos outros.
No final a gente não sabe a
luta pelo qual o outro está passando, e às vezes as pessoas tentam nos afetar,
mas elas que estão passando por problemas mais difíceis. Justifica fazer
bullying? Não justifica, mas como eu disse, empatia faz falta, ainda mais no
ensino médio.
A questão é, eu já conheci
algumas Hannahs, e já tive a capacidade de estender a mão para uma ‘ex amiga’
quando ela precisou de mim, quando o mundo se virou contra ela. Ela tinha
deixado de ser minha amiga para virar popular, como o Jess da série. Depois
disso, ela até bullying fez comigo. Mas no momento em que as pessoas começaram
a chamá-la de puta, foi a mim que ela recorreu. Foi ao meu ombro. Eu podia ter
virado as costas, ter dito que não era problema meu. Ao invés disso, eu
resolvi acreditar na versão dela. Mesmo que não fosse real, mesmo que depois
viessem me contar que tudo que ela me falou era mentira. Quem estava presente
para comprovar que ela deu para o fulano ou o ciclano? E mesmo que ela tenha
feito isso, não é da conta de mais ninguém. Ela precisava da minha ajuda, do
meu apoio naquela hora, e eu o dei.
Na época eu ainda tinha
muitos preconceitos, muitos pensamentos machistas de que mulher tinha que "se
preservar" e tudo o mais. Achava que toda a mulher ia achar seu príncipe encantado
se ela fizesse por merecer. Demorou bastante tempo para eu compreender que isso
se tratava de um pensamento limitado, cheio de conceitos formados por outras
pessoas e impostos a mim. Mas eu ainda estava lá para ajudar uma amiga, independentemente
de como ela tenha me feito de boba no passado.
Com o tempo, é claro, eu
passei a entender que assim como os homens não devem explicação a ninguém sobre
sua vida sexual, a mulher também não precisa, pois, as decisões são delas e
apenas delas.
O termo “vida pessoal” já
diz tudo, não? É pessoal, privada, propriedade particular, e não cabe a ninguém
julgar uma mulher pela quantidade de parceiros que ela tem. Pois se ela fosse
homem, ninguém ia julgar...ao menos não de forma negativa, não é mesmo? Seria “Pegador”,
“Cachorrão”, “Macho!”. Nada de “Puto”, “Vagabundo”, “Porco”.
Um infeliz do terceiro ano
veio uma vez me pedir dinheiro no corredor, para comprar um lanche. E quando eu
disse que não tinha, ele disse que me devolveria na forma de um beijo. Eu
mostrei o dedo do meio e sai. Primeiro que ele era um idiota, e segundo, se
alguma guria, qualquer guria, aceitasse a proposta, seria considerada ‘a
desesperada’, e se fosse uma guria a fazer essa proposta, seria a puta que
troca beijos por dinheiro. Mas ele, sendo homem, só foi um “piadista”. Esse tipo
de comportamento me ofendia e me ofende mais do que qualquer apelido idiota que
tenham inventado para mim. É uma espécie de assédio, uma brincadeira que leva a
outro e a outra, e quem sabe aparecem Hannahs da fita 12 pela escola.
Garotos que agarram garotas,
pois a reputação delas é de “fácil”. Garotos que se acham no direito de tentar
abusar sexualmente das colegas, pois “O fulano pode, então eu também posso”. E
a culpa cai sobre quem? A vítima, que já teve a reputa"ão destruída por fofocas de pessoas que deveriam estar cuidando do próprio umbigo.
De repente vira obrigação
delas “dar”, pois elas já estão com o nome manchado mesmo. Pois “Ela
praticamente me implorou pra fazer!”. Pois “Ela está namorando comigo, logo é obrigação
dela fazer sexo comigo a hora que eu quiser”. E assim vai. A bola de neve
cresce, o bullying se transforma em assédio, e alguns jovens acabam optando
pelo suicídio.
(Resumindo, uma vez manchada
com a letra escarlate, a mulher passa a andar com um alvo colado na bunda. Tudo
por causa de brincadeiras, que viram bullying, que viram assédio/violência e
que pode ou não virar suicídio, ou homicídio.)
E isso poderia ser evitado com
o apoio certo, com empatia, com compaixão. Então, antes de falarem alguma coisa
de ruim sobre alguém adiante, tentem se colocar no lugar dessa pessoa, e do que
ela pode estar passando na vida, e o que uma fofoca inútil pode criar: Um
efeito borboleta.
Uma brincadeira de mal gosto
pode causar um furacão no futuro, e o alvo desse furacão nem sempre consegue
sair com vida dele.
O triste é pensar que algumas
pessoas precisam de uma série, de um exemplo como esse, para repensarem um
pouco sobre as próprias atitudes com relação às outras pessoas. Isso SE todos
repensarem. Nem todos os telespectadores tem a capacidade de colocar a mão na consciência,
nem todos têm a capacidade de se identificar com os ‘vilões’, pois no final,
ninguém gosta de se ver como o malvado da história.
Mas é PRECISO repensar. É
NECESSÁRIO refletir. É IMPORTANTE mudar. No final, sabemos que ninguém é
perfeito, mas não é colocando os outros para baixo, que tua autoestima vai
aumentar. Não é apontando os defeitos dos outros que os teus vão sumir. Aprenda
a lidar com as tuas falhas, sem ter que denegrir os outros.
