10/04/2017

Hey, sou eu, Hannah Baker



Ok, mentira, não sou ela. Eu nunca tomei uma medida tão drástica quanto esta personagem. Mas ao longo da minha trajetória, conheci algumas QUASE Hannahs.
A série de TV do Netflix 13 reasons why surgiu com o propósito de repensarmos um pouco nossas atitudes e experiências, principalmente durante a época do colegial, onde Bullying pode criar traumas e influenciar na decisão de “resolver nossos problemas de uma vez por todas”. (Para quem não conhece, conta a história de uma adolescente que cometeu suicídio e deixou fitas contando os treze motivos pelos quais ela quis se matar.)
            Segundo uma pesquisa publicada na BBC de Portugal, o suicídio já matou mais jovens que o HIV no mundo todo, principalmente nos países de baixa renda. Apesar das causas não serem muito estudadas, acredita-se que o bullying pode ser um dos principais gatilhos que levam os adolescentes a acabarem com a própria vida. Isso quando não invadem uma escola, armados, e tiram a vida de outros colegas antes de tirar a sua.
            E quando a situação é mais perto de casa, é mais pessoal, talvez relatar nossaa próprias experiências ajude as pessoas a se colocarem no lugar das outras, não? Ao menos é o que eu espero conseguir com este texto.
            Aos seis anos eu me mudei para Montenegro, saindo da capital. Digamos que a recepção não foi muito boa. Já na primeira série eu sofria ameaças de uma colega, e de um rapaz da sexta série que adorava chamar a mim e ao meu irmão de “filhotes de chupa-cabra”. Na época o termo “bullying” não era usado nas escolas do Brasil, e muitos professores e funcionários faziam vista grossa com relação a situações de abuso psicológico. Afinal, num educandário de interior, quem esperava ter que lidar com esse tipo de situação? O colégio simplesmente não estava preparado, assim como muitas instituições de ensino de muitas cidades do país. Então, para aquele valentão, o termo não existia, e ele só estava “brincando” com a gente. Perseguindo-nos na hora da saída da escola, atirando o casaco do meu irmão no lixo, ameaçando nos bater. Como ainda éramos crianças, tivemos e “contar para a mamãe” sobre a situação. De que forma poderíamos explicar como meu irmão ficou com o dedo gigante depois de levar duas picadas de abelha ao tentar resgatar seu casaco? Resumo da ópera, dona Estela veio a escola e conversou com o valentão, ameaçando contar para os pais dele sobre o ocorrido, jurando que se ele encostasse um dedo na gente de novo, se arrependeria pelo resto da vida.
            Mas esse foi apenas um caso solucionado, entre vários. Ao longo do tempo, eu passei a revidar xingamentos e implicâncias na base do soco.

                 “Isso não é coisa de menina”

            Talvez não fosse, mas eu sentia necessidade de fazer um pouco de justiça com minhas próprias mãos. Até porque, aos 10 anos perdi meu irmão em um acidente, e senti a necessidade de “me vingar” dos bullyings que ele também sofreu. Foi-se meu companheiro de luta, e tive que aprender a me defender sozinha. Ninguém entendia dessa forma. Ninguém nunca entendeu.
            Enfim, ao longo do tempo, era mais divertido para os guris implicarem comigo, pois eu ficava brava e brigava. Minha mãe pedia para que eu os ignorasse, pois aí perderia a graça e eles parariam. Só que não era ela lá, no meio daquele furacão de piadas e xingamentos, era? (E chega a ser irônico como esses rapazes, quando estavam em grupo agiam como um bando de babuínos bobocas babando em bando, ou seja, como eles agiam de forma idiota para impressionar uns aos outros. Mas individualmente, quando se conversa com alguns deles, se percebia como eram caras legais que só faziam as merdas para tentar se enquadrar.)
Porém, eventualmente acabei seguindo as instruções dela, revidei respondendo às piadas com escárnio, e até fazendo bullying eu mesma. É um círculo vicioso. Todos acabamos sendo perversos uns com os outros. Cada um tenta compensar de alguma forma seus próprios problemas. Acabamos julgando os outros, sem perceber que isso lhes dá o direito de nos julgar também. 
Ao longo do ensino médio, eu criei um muro, uma proteção, e parei de me importar. Nunca tive muitos amigos com quem contar, e talvez isso faça com que me identifique um pouco com a Hannah. Mas diferente da personagem, eu era praticamente considerado um ser assexuado, e não sofria piadas com relação a minha vida pessoal, que era bastante monótona, na verdade.
Mas as outras Hannahs sim. Outras Hannahs tiveram os nomes arrastados na lama, muitas vezes por conta de muita fofoca, e pouca verdade. Por conta de alguma bola de neve que ia aumentando ao longo do ano. Não sei dizer se alguma delas teve um destino tão trágico quando a fita 12. Espero que não. O que me intriga é pensar que a vida pessoal dessas garotas de repente virava assunto público, e que elas não tinham mais direito sobre as próprias escolhas, pois um bando de abutres as rodeavam e observavam cada movimento, esperando uma vacilada, uma “pegada” errada, para logo espalharem, atirando aos quatro ventos os apelidos carinhosos de “Puta!”, “Vadia”, “Corrimão!”, “Rodízio”, “Passadora de rodo!”.
“Eu ouvi dizer que a fulana se mudou para Porto Alegre porque estava tão mal falada na escola, que não aguentou ficar aqui”. Essa bela frase era dita entre risos, e seus autores não demonstravam um pingo de preocupação. Será que eles destruíram tanto o espírito dessa garota que ela se forçou a ir embora? Ou ela foi por conta do emprego do pai, e outras pessoas deram uma interpretação livre para situação? Importa agora? Alguém algum dia pediu desculpas por tratar ela como uma vadia? Por se achar no direito que espalhar coisas sobre a reputação dela? Se eu espalhei, desculpa! Na época me faltou empatia, o que é bastante irônico, dado o fato de que eu sofri por outros motivos, outros apelidos, mas sofri por igual.
Uma vez, aos 14 anos, fui chamada de lésbica por uma colega, simplesmente porque eu ainda não havia perdido o “BV”. Depois de formada, ela veio a sair do armário, o que me faz pensar no quanto ela estava lutando com a própria identidade, e como ela refletia isso nos outros.
No final a gente não sabe a luta pelo qual o outro está passando, e às vezes as pessoas tentam nos afetar, mas elas que estão passando por problemas mais difíceis. Justifica fazer bullying? Não justifica, mas como eu disse, empatia faz falta, ainda mais no ensino médio.
A questão é, eu já conheci algumas Hannahs, e já tive a capacidade de estender a mão para uma ‘ex amiga’ quando ela precisou de mim, quando o mundo se virou contra ela. Ela tinha deixado de ser minha amiga para virar popular, como o Jess da série. Depois disso, ela até bullying fez comigo. Mas no momento em que as pessoas começaram a chamá-la de puta, foi a mim que ela recorreu. Foi ao meu ombro. Eu podia ter virado as costas, ter dito que não era problema meu. Ao invés disso, eu resolvi acreditar na versão dela. Mesmo que não fosse real, mesmo que depois viessem me contar que tudo que ela me falou era mentira. Quem estava presente para comprovar que ela deu para o fulano ou o ciclano? E mesmo que ela tenha feito isso, não é da conta de mais ninguém. Ela precisava da minha ajuda, do meu apoio naquela hora, e eu o dei.
Na época eu ainda tinha muitos preconceitos, muitos pensamentos machistas de que mulher tinha que "se preservar" e tudo o mais. Achava que toda a mulher ia achar seu príncipe encantado se ela fizesse por merecer. Demorou bastante tempo para eu compreender que isso se tratava de um pensamento limitado, cheio de conceitos formados por outras pessoas e impostos a mim. Mas eu ainda estava lá para ajudar uma amiga, independentemente de como ela tenha me feito de boba no passado.
Com o tempo, é claro, eu passei a entender que assim como os homens não devem explicação a ninguém sobre sua vida sexual, a mulher também não precisa, pois, as decisões são delas e apenas delas.
O termo “vida pessoal” já diz tudo, não? É pessoal, privada, propriedade particular, e não cabe a ninguém julgar uma mulher pela quantidade de parceiros que ela tem. Pois se ela fosse homem, ninguém ia julgar...ao menos não de forma negativa, não é mesmo? Seria “Pegador”, “Cachorrão”, “Macho!”. Nada de “Puto”, “Vagabundo”, “Porco”.
Um infeliz do terceiro ano veio uma vez me pedir dinheiro no corredor, para comprar um lanche. E quando eu disse que não tinha, ele disse que me devolveria na forma de um beijo. Eu mostrei o dedo do meio e sai. Primeiro que ele era um idiota, e segundo, se alguma guria, qualquer guria, aceitasse a proposta, seria considerada ‘a desesperada’, e se fosse uma guria a fazer essa proposta, seria a puta que troca beijos por dinheiro. Mas ele, sendo homem, só foi um “piadista”. Esse tipo de comportamento me ofendia e me ofende mais do que qualquer apelido idiota que tenham inventado para mim. É uma espécie de assédio, uma brincadeira que leva a outro e a outra, e quem sabe aparecem Hannahs da fita 12 pela escola.
Garotos que agarram garotas, pois a reputação delas é de “fácil”. Garotos que se acham no direito de tentar abusar sexualmente das colegas, pois “O fulano pode, então eu também posso”. E a culpa cai sobre quem? A vítima, que já teve a reputa"ão destruída por fofocas de pessoas que deveriam estar cuidando do próprio umbigo.
De repente vira obrigação delas “dar”, pois elas já estão com o nome manchado mesmo. Pois “Ela praticamente me implorou pra fazer!”. Pois “Ela está namorando comigo, logo é obrigação dela fazer sexo comigo a hora que eu quiser”. E assim vai. A bola de neve cresce, o bullying se transforma em assédio, e alguns jovens acabam optando pelo suicídio.
(Resumindo, uma vez manchada com a letra escarlate, a mulher passa a andar com um alvo colado na bunda. Tudo por causa de brincadeiras, que viram bullying, que viram assédio/violência e que pode ou não virar suicídio, ou homicídio.)
E isso poderia ser evitado com o apoio certo, com empatia, com compaixão. Então, antes de falarem alguma coisa de ruim sobre alguém adiante, tentem se colocar no lugar dessa pessoa, e do que ela pode estar passando na vida, e o que uma fofoca inútil pode criar: Um efeito borboleta.
Uma brincadeira de mal gosto pode causar um furacão no futuro, e o alvo desse furacão nem sempre consegue sair com vida dele.
O triste é pensar que algumas pessoas precisam de uma série, de um exemplo como esse, para repensarem um pouco sobre as próprias atitudes com relação às outras pessoas. Isso SE todos repensarem. Nem todos os telespectadores tem a capacidade de colocar a mão na consciência, nem todos têm a capacidade de se identificar com os ‘vilões’, pois no final, ninguém gosta de se ver como o malvado da história.
Mas é PRECISO repensar. É NECESSÁRIO refletir. É IMPORTANTE mudar. No final, sabemos que ninguém é perfeito, mas não é colocando os outros para baixo, que tua autoestima vai aumentar. Não é apontando os defeitos dos outros que os teus vão sumir. Aprenda a lidar com as tuas falhas, sem ter que denegrir os outros.