Enfim, deitei-me com a luz do abajur acesa, eu tinha medo do escuro, como qualquer criança “normal”, e dormi. Tive um sonho estranho, onde o garoto Charlie estava. Ele não estava aos trapos, como o vira antes. Pelo contrario, vestia um belo terno branco, mas, sujo de lama até os joelhos. Ele parecia ter corrido muito, parecia cansado, mas, ao ver-me, sorriu, e abraçou-me.
“Graças aos céus, encontrei-te, meu amigo.”
“Você está bem?”
“Agora, que te encontrei, são e salvo, estou melhor do que nunca. Posso até voar de tanta emoção!”
“Eu não entendo, do que está falando?”
“Liberdade meu irmão, liberdade!”
“O que a liberdade tem haver com você ter me achado ou não?”
“Tudo, todos os sentidos!”
O sonho parecia cada vez mais um sonho.
“Tenho de te avisar, prepara-te, pois há partes do destino que não te querem bem. Lembra-te, o que não te mata, torna-te mais forte! Acredito em ti!”
Onde está o sentido em tudo isso? O que ele quer dizer com liberdade afinal? E por que raios ele está falando desse jeito?
Foi então que me acordei de um pulo, quando minha mãe chamou meu nome. Já era de manhã, o sol tocava minha janela, e minha aula, em poucos minutos iria começar. Arrumei-me lentamente, sem vontade alguma de sair de casa. Foi quando chutei sem querer, o grande presente em formato esférico. Ele parecia estar com o pacote rasgado. Não totalmente aberto, mas esperando pra que eu o abrisse. Que mal teria? Abri. Era uma bola de basquete. Eu nunca havia recebido um presente tão legal quanto aquele, embora, jamais pensasse que algo como aquilo, me faria tão feliz. Minha vontade de ir para a escola, de repente aumentou, de um salto! Eu queria mostrar para meus colegas o meu presente! Eu parecia uma criança, com um brinquedo novo. Bom, de certa forma, eu era isso mesmo! Foi ai que me lembrei. “Nossa! Ela deve ter feito algo realmente ruim para me subornar desse jeito!”. Mas, não a queria incomodar. E se ela mudasse de ideia, e pegasse de volta? Fora de questão! Deixei que ela viesse me contar na hora certa. Além do mais, qualquer coisa que ela fizesse, depois daquilo, estaria perdoada por no mínimo uns três anos.
Ela me levou até a escola, brincando comigo.
- Onde arranjou essa bola? Terei de brigar com seu pai por ter mimado tanto o meu bebêzão?
“Bebêzão” era tudo que eu merecia!
O dia na escola foi legal, meus colegas me invejaram pela bola, e até quiseram trocar ela por um bando figurinhas bobas! No recreio, jogamos basquete, e eu fiz minha primeira cesta! Mas, fora isso, nada de mais.
Na hora da saída, Charlie estava lá de novo. Parecia meio curioso. Cheguei à conclusão de que o meu presente tivera uma repercussão maior do que eu esperava.
- Bola legal! – disse-me
- É, ganhei da minha mãe!
- Ela te disse isso? – perguntou ele. Que diabo de pergunta era aquela?
- Ela não precisa me dizer. Ela estava tentando se redimir de tudo que é jeito, de um erro, que, alias, ela ainda não me falou sobre.
- Como sabe que é um erro?
- Pra ela me tratar daquele jeito? Só poderia ser algo péssimo. Tenho até medo de descobrir!