22/12/2018

Poça Rasa

Não existe motivo para se preocupar.
Se preocupar com o quê?
Seja lá o que ele fizer,
Fará sem pensar duas vezes,
Se deve, se pode, até mesmo se quer.

É assim que a mente de gente pequena age,
Impulsivamente,
Sem levar em consideração a quem irá ferir,
Pois o único ferimento que importa é o seu.

E por mais que sofras,
Reflitas,
E esperneie,
Ele não vai mudar.

E por mais que queiras acreditar,
Botar fé,
Ansiar,
Ele não mudou.

Eis aqui um lembrete,
Uma ironia trágica,
O "Eu te avisei",
Do teu passado pro teu futuro.

No fim das contas,
A única que podes culpar
É a ti mesma,
Por ter novamente depositado teus rios de esperança,
Sobre uma poça rasa de pessoa.

10/11/2018

Perdão

Quando sonhos se transformam em pesadelos,
Beijos cortam feito lâminas,
Carícias criam abismos,
Risos irrompem em lágrimas.

O que resta?
Um peito oco,
Olhos marejados
E a certeza de que o vazio
Aos poucos toma conta deste ser.

Vil, vulgar, vilão,
Corpo, karma, canção.
Em cada rompimento,
Se assumem papéis,
Dentre a raiva e a desolação.

Nada se pode fazer,
Além de aceitar,
O fim que chegou sorrateiro,
Se alojando em pensamentos,
Contaminado o coração,
Afogando pouco a pouco,
Um futuro que nunca virá.

Não há o que dizer,
Apenas pedir:
Perdão.

17/10/2018

O garoto debaixo da escada

Existe um garoto debaixo da escada.
Sorridente, com seus cabelos loiros, ele encara todos que adentram a casa.
Ele não come,
Não dorme
E não fala nada.
O menino está cercado de Santos e de lembranças amadas,
Do tempo em que ele era mais do que uma foto emoldurada,
Morando debaixo da minha escada.

25/08/2018

Hora dessas

Hora dessas penso em escrever de novo
Novas linhas de quem uma vez eu fui.
Uma amostra grátis da minha existência,
Pra quem queira levar pra casa.
Registrar que estive aqui,
Antes de deixar de estar.

Hora dessas penso em comer de novo,
Achar combustível pra manter meu corpo em movimento,
Apenas para ver o sol renascer,
E respirar a brisa leve do Campo,
Que a mim tanto falta.

Hora dessas eu penso em caminhar de novo,
Parar de zanzar pelos cantos de minha mente sombria,
E dar passos frescos,
A luz do dia.

Hora dessas penso em reabrir meu coração,
Limpar a ferida exposta,
E deixar cicatrizar propriamente.

Hora dessas penso em dormir de verdade,
E adentrar silente o mundo dos sonhos.

Hora dessas penso em viver.


17/03/2018

Eu vi na internet, então deve ser verdade


Chora, chora mais.
Quem se importa?
Eu não.

Grita, ri,
Aplaude de pé.
Afinal, ela pediu, não foi?

Morreu,
Mereceu.
Morreu,
Antes ela do que eu.

Defendeu marginal, se fudeu!
Eu até defendo direitos humanos,
Mas não 'bandidos humanos'.

Se envolveu, não é verdade?
Abriu o bico sobre a maldade,
Denunciou, quem mandou?
Não devia, vadia.

Eu vi na internet, naqueles sites meia boca,
Compartilhei, vai que é verdade?
Ao menos pra mim já serve.

Alimenta meu ego,
Multiplica a ignorância.
E me enche de razão.

Antes ela do que eu,
Mereceu.
Se fudeu.

Afinal, tantas outras morrem assim,
Ou pior,
Chutadas, estupradas, debulhadas.

Ela foi só mais uma.
Representou tantos,
Depois morreu como tantas.

Pra que chorar?
Com o fulano tu não chorou,
E o ciclano, lembra dele?
Coitados.

E as crianças passando fome?
E os animais de rua?
Tem tanto problema por ai no mundo,
Vai chorar por quem nem conhecia?

Só não é válido o argumento,
Quando chorei pelo físico estrangeiro,
Lá se foi um gênio,
Comprei o livro dele ontem.

Agora aquela azinha,
Chora não.
Tu era o cafetão?

Só porque ela pertencia ao nosso país?
Só porque ela se pronunciou contra a violência?
Só porque ela era um ser humano?

Tinha família, era descente, inteligente,
Uma vida que se foi.
Mas abriu a boca...

E se fosse tua mãe,
Tua filha,
Tua melhor amiga?
Sangrando naquele carro?

Ufa, não foi,
Mereceu,
Antes ela
Do que eu.


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(Isto é uma crítica Àqueles que destilam ódio, espalham asneiras e se acham donos da razão ao compartilharem notícias falsas. A ironia está explicita, espero eu.)

(E eu vi usarem o termo "bandidos humanos" e não deu pra segura, tive que agregar)