Aos 18 anos parei de menstruar.
Sei que não é um bom jeito de começar uma história, muito menos de justificar o título por completo, mas garanto que com o tempo gasto na leitura, vocês vão começar a entender melhor a situação e talvez até gostar dela.
Quando a pausa se estendeu por alguns meses, a preocupação começou a tomar conta de minha mente. Mamãe garantia que não era nada, só o psicológico agindo para me deixar louca. Não que eu me encontrasse sã, mas mais insana ainda, diga-se de passagem.
Gravidez não poderia ser, pois acabara com meu namorado antes de parar o anticoncepcional, então fui na “doutora feminina” para avaliar minha situação.
Ela cogitou a hipótese de ser síndrome do ovário policístico, o que é algo bem comum, pois uma a cada dez mulheres sofre desta doença. Para saber com certeza se era realmente este o meu problema, tive de fazer uma ecografia, e o que me aconteceu foi extremamente triste. Descobri que não era este meu problema. Investigamos mais a fundo e o câncer se revelou, cruel e avassalador como é de praste em mulheres novas, em fase de crescimento.
A angustia, o medo e o frio sentimento de que a morte poderia se aproximar correu livre em minhas veias. Calafrios escalaram minha espinha. O que seria da minha vida? Ela se encurtaria? Teria uma cura absoluta? Tudo parecia estar contra mim. O tempo, a dor que começou me atormentar, a vontade de seguir em frente que diminuía... Era como se eu nadasse num mar cuja corrente me arrastava para longe de meu destino cada vez mais. E a fraqueza, Ahh Deus, a pior parte de todas. Ela parecia esmagar os ossos, pressionando-os no colchão, assim como as costelas no coração.
E isso tudo veio à tona, antes mesmo de começar a quimioterapia. O que seria de mim depois dela? Rasparam minha cabeça, enfiaram tubos em veias e a respiração ficava lenta. Até deram a idéia de tirar o útero fora, mas a doença parecia ter ido mais adiante do que isso. Como não percebemos antes? E que tipo de vida teria eu pós-câncer? Se é que haveria uma fase além da doença.
Todos os míseros problemas que já tive em minha vida, juntos, não se comparavam aquilo. Quão patética eu era, reclamando de barriga cheia sobre coisas como pele oleosa ou gordurinhas abdominais salientes. Já haviam me criticado, dito que era mimada, infantil, que jamais havia passado por dificuldades reais. Merecia eu um castigo somado tão grande? Refleti várias vezes sobre meus atos antes, mas aquela hora as coisas pareciam surgir do nada, brotar da terra simplesmente para esmurrar minha face uma e outra vez.
Lembrei-me de tantas coisas.
O fato de eu não acreditar em Deus, desde que meu irmão faleceu, quando eu tinha 10 anos. Sempre que eu jantava ou almoçava na casa de minha avó era a única a não fazer o sinal da cruz quando eles todos começavam a rezar. Olhava despreocupada para os lados, ou acariciava meu nariz com alguns fios de cabelo. Até mesmo, em determinadas ocasiões, pensava no porquê de ser assim, diferente. Afinal, não fui só eu que o perdi. Tanto meus avós, quanto meus pais, e meus tios também tinham sido furtados dessa maneira em relação ao pequeno Victor. Mas eu, somente eu havia perdido a fé em Deus. A família toda católica, eu atéia.
Também sou/era pessimista. Acreditava que estando sempre preparada pro pior, nada poderia me atingir, jamais estaria desprevenida, de guarda baixa. E talvez tenha sido meu pessimismo que atraiu o câncer. E de novo, foi ele que me fez pensar na morte como sendo certa. Se estava eu no fundo do poço, para onde mais poderia ir? Teria de escalar as paredes, mesmo que isso significasse que poderia resbalar e cair de novo. Eu iria morrer, não era certo quando. Poderia ocorrer em 2 meses ou 20 anos. O certo era que eu deveria viver. Minhas dúvidas quanto ao céu e ao inferno que fosse para o espaço. Se Deus realmente existisse, daria eu com a cara no muro. Pediria perdão pela minha descrença e talvez seguisse meu caminho rumo ao paraíso. Ou não. Ou haveria uma ala especial separada para mim no Limbo. Que diferença fazia enquanto e estava viva, respirando? Nenhuma!
O mundo ia acabar uma hora para todos. Não é o jeito de morrer que te torna quem és, mas o jeito com que viveste tua vida.
De certa maneira, acordei para o mundo. Abri meus olhos e enchi os pulmões de esperanças, ergui minha cabeça e mergulhei na realidade.
Pedi desculpas a todos com quem errei, desejando que elas fossem aceitas não pelas condições com que me encontrava. Sem pena, sem coragem de dizer não, esperava que eles aceitassem de verdade.
Dei-me a oportunidade de chorar, de sentir. Antes era uma pessoa fria com os outros e comigo mesma. Mudei.
Voltei a amar. Amar aquilo que fui, o meu corpo, meus sonhos, meus familiares. O luxo de poder viver de novo sem remorso caminhou junto comigo nesta jornada.
E sabe do que mais? Obrigada Câncer. Posso não durar, mas vivi mais do que havia vivido nestes 18 anos, e isso vai perdurar por toda a eternidade.
Aconteceu-me o inesperado: A Doença se tornou minha cura. Parei de temer por causas fúteis. Voltei a me emocionar. Retornei a infância onde cada momento parecia uma surpresa gostosa, que chega a dar friozinha na barriga. Só o fato de “ir aos pés” sem medicamento já é uma vitória.
O câncer não me derrotou, e sim, ajudou-me a levantar.
(Detalhe importante, como eu sei q ninguém lê a descrição do blog... a história não é verídica! Eu tô legal, ok?)



