05/02/2010

8 anos


              O relógio está tiquetaqueando, e o calendário, berrando para mim! É hoje que conto, quantos dias me escondi do adeus. Contei essa historia um milhão de vezes, para outras pessoas, e às vezes, contei até para mim, na frente do velho espelho do banheiro. E ele se foi. Como um pássaro fugindo do inverno, ele voou. O corpo dele não foi muito longe, já a alma, não sei dizer. Faz tantos anos, e minha mãe ainda treme quando repito vezes e mais vezes que ele morreu. Apaguei minhas estrelas, ao ver seu cadáver acima de minha cabeça. Tínhamos tombado. O MALDITO ônibus despencou no asfalto. Eu em perguntei tantas vezes “por quê?”. Até hoje, não entendo ao certo, o que havia acontecido. Como aconteceu?

              Na manhã do acidente, eu havia escovado os dentes, juntado o resto de tralhas que eu levaria para a praia, e me despedido da minha cama, dos meus ursos, dos meus bibelôs, e esperei, até a tarde, para pegarmos o ônibus que nos levaria para Santa Terezinha. Naquele fim de semana, as pessoas se perguntavam: “Por que ele está tão quieto? Parece até um anjinho!”. E, será que já não era? Às 2 da tarde nos despedimos de minha mãe na rodoviária. Minha irmã (Gabriela) e minha prima (Heike) iam se sentar juntas na nossa frente. Eu e ele tínhamos de disputar quem sentaria no banco mais perto da janela, dessa vez. Ele chegou a apostar comigo:
              - Teu banco é o 9 e o meu é o 10. O que der na janela, deu.
              Quem ganhou? Isso importa? Nessa historia, sim. Pois fui eu quem sentou no banco mais perto da janela, janela de emergência. Uns dias antes tínhamos combinado uma trégua. Queríamos nos reconciliar, afinal, irmãos sempre brigam. Quanto mais novos, mais brigas. No nosso caso, não era diferente. Mas queríamos mudar. Queríamos parar. Óbvio que nossa trégua durou, o que?! 2 horas? E, naquele dia, parecia impossível mantê-la. Primeiro, porque antes de sair, eu queria jogar no videogame dele, o que ele nunca deixava. Depois, pra completar, alguém havia estragado todo o desodorante dele, e ele pôs a culpa em mim, pra variar. Ainda por cima, eu ganhei o melhor lugar, perto da janela, o que o deixou mais irritado ainda.
              Ele baixou o braço da poltrona. Isso foi como ímã, atraiu-me para uma briguinha rotineira. Ficamos lá, disputando o braço do banco, até que ele mordeu minha mão, e se encolheu emburrado no canto mais afastado da poltrona. Depois disso, mal olhei para ele.
              Fiquei apreciando a paisagem. Estávamos quase chegando. Minha irmã estava prestes a pegar o “tijolar” para ligar, avisando de nossa chegada. Foi quando eu percebi. Olhei para dentro do ônibus, meio desorientada, talvez, deslumbrada com a paisagem, e vi que todos os passageiros começaram a se encolher, pondo os joelhos na frente do rosto.
             Em uma fração de segundos, olhei para meu irmão, ali, parado, distraído, olhando para o chão, abraçado no travesseiro, junto do exemplar do “Harry Potter e o prisioneiro de Askaban”, e me encolhi, da mesma maneira que todos os outros( Talvez seja por isso que hoje desprezo tentativas de me tornar parecida como os outros). Eu não pensei que algo de ruim pudesse acontecer, e não achei que fosse capaz de avisá-lo a tempo.
                                                        Querendo ou não, eu jamais o avisei.
             Fechei meus olhos, na esperança de que tudo acabasse logo. A primeira batida foi do lado esquerdo, em uma parada de ônibus, a segunda, foi em um velho tronco de árvore, tombado no outro lado da estrada. Em seguida, estávamos tombados no barranco.
             Abri meus olhos. Vi a janela intacta, mas solta, e os pés de meu irmão, acima de minha cabeça. Tentei me arrastar para perto para ver se ele estava bem, mas o banco dele estava caído sobre minha perna. Demorei um tempo para me desvencilhar dele, e chegar mais perto do Victor. Eu entrei em pânico. O bagageiro estava sobre sua cabeça ensangüentada. Eu estava desesperada, tentando procurar pulsação nele. A minha esperança, era encontrar vida naquele corpo. E, com toda aquela agitação, as cores se embaralhavam na minha cabeça.
             A polícia não demorou a chegar, e mandou que eu, minha irmã e minha prima, saíssem do ônibus, que depois eles tentariam salvar meu irmão. Eu ainda não enxergava muito bem quando me sentaram na grama, e depois me levaram para a ambulância.
             Lembro-me de estar escorada no ombro de minha prima, ouvindo uma garota, no outro banco da ambulância, gritar:
              - Minha mãe morreu! Eu a vi... morta! Ela não estava respirando! E o que eu vou fazer sem ela? Minha mãe morreu!!!
              Eu senti pena da garota, mas não podia fazer nada por ela. Aliás, nada por ninguém, eu tinha apenas 10 anos.
              No hospital, fiquei me gabando, para a enfermeira, que eu nunca havia estado em um hospital antes:
             - E espero que nunca mais precise, querida! – disse-me ela
             Eu e minha prima já estávamos liberadas para ir para casa. Minha irmã ia ficar em observação por um tempo, graças a uma contusão na cabeça. Mas, a principal preocupação, foi com o Victor. Ele, sem duvida alguma, era o caso mais sério entre nós quatro. Quando fomos falar com o médico, minha prima ligou para minha avó, mãe de minha mãe, para relatar o acontecimento. Minha avó esperaria meus pais estarem em casa, para contar-lhe do acidente. O medico disse:
             - Estamos em duvida, se ele sofreu um traumatismo craniano, ou apenas rasgou o lábio.
             - Traumatismo Craniano? – minha prima berrou, sem querer, alertando minha avó, no outro lado da linha
             - Ou um corte no lábio! – disse o médio, tentando acalmá-la.
             Obviamente na época, eu não entendia muito bem o que isso significava. Se era bom ou ruim. Mesmo assim, o tom de minha prima me alarmou.
             Meia-hora depois fomos para a casa da praia em Albatroz. Meu tio havia nos buscado no hospital. quando digo "nos", refiro-me a Heike e eu. Minha irmã ia ficar em observação, e pelo que sabíamos, meu irmão também.
            Ao chegarmos lá, todos vieram nos abraçar e perguntar como estávamos. Repararam também que necessitávamos de um bom banho. Mas estávamos muito apreensivas, queríamos notícias do Victor!
            Paramos na frente da televisão, esperando o noticiário das 7. O alívio inundou o coração de todos quando ouvimos a repórter relatar que duas mulheres e um HOMEM faleceram naquele acidente.Claro que sentimos pena dos parentes da Vítima. Mas o "Alemão" ainda vivia!
            Foi no que acreditamos. Fizeram-nos acreditar! Pude enfim ir tranqüila para um banho. Quando sai, avisaram-me que meu avô havia saído para visitar meus irmãos no hospital. Esperamos, não sei exatamente quanto tempo , com a ilusão de que as notícias frescas que ele traria seriam otimistas. Ele finalmente chegou, ao sair da camionete, um coro de vozes esperançosas se elevou:
           "- Como é que tá o Victor, vô?"
           A resposta não saiu como queríamos. Ele estava com os olhos cheios d'água. Gritou:
           "- Ele morreu!"
           Meu coração parou por 2 segundos. Todos caíram em lágrimas, menos eu. Ainda estava perplexa de mais para entender.
           "- O quê? Não é verdade!"
           Minha ex-empregada que tinha ido para lá veranear com o filho ajoelhou-se e disse:
           "- Nessas horas tu tens que ser forte! Ele se foi"
           Como se fosse adiantar de alguma coisa. Eu sai correndo, subi as escadas as pressas, entrei no quarto, parei em frente a minha cama e comecei a rezar:
           "- Me acorda desse pesadelo! Ele tá vivo! Me acorda! Só pode ser um pesadelo!"
          Sabe quantas vezes eu já desejei que ele morresse? Todas da boca para fora! Irmãos brigam! Isso não quer dizer que eles não se amam! Na verdade, eu o amava mais do que a mim mesma. Mais do que jamais serei capaz de me amar!
      

          À partir desse dia eu desejei nunca mais crescer! Desejei bilhões de vezes estar no lugar dele! Eu não pude chorar naquele dia, e isto me assombra até hoje. Eu tive um ataque de pânico. Não pude respirar, quanto mais produzir lágrimas de luto.

         Espero que isto seja uma lição para todas as pessoas que dizem odiar umas as outras. Só fui capaz de perceber o quanto amava ele quando o perdi, e espero que ninguém mais seja tão tolo quanto eu a esse ponto. Se tu tens um irmão ou algum parente com alguns assuntos mal resolvidos, pense, o que seria de ti sem ele. Talvez ai tu possas ter uma idéia de como eu me sinto hoje. Um peixe fora d'água. Uma águia de asa quebrada. Um urso incapaz de caçar. Um coração desprovido de amor. Um anjo caído. Uma flor sem perfume. Um vaga-lume sem luz. Com o tempo espero que esta dor se acabe. Eu não quero superar a morte dele, e sim aceitá-la. Pois superar implica em esquecer, e dele eu nunca vou esquecer!

Um comentário:

Anônimo disse...

Eu acho que tu foste muito corajosa ao relatar isso. Eu já ouvi essa história antes e eu não consigo entender a tua dor. Eu nunca tive uma perda tão perto de mim, mas sei que é necessário muita coragem para "falar" sobre isso com outras pessoas.

Nós nunca vamos entender o porquê de alguém morrer. Ninguém tem controle sobre isso. Ninguém sabe quando será seu dia, então devemos pensar bem no que dizemos e fazemos HOJE.

Eu não acho que tu sejas "um peixe fora d'água. Uma águia de asa quebrada. Um urso incapaz de caçar. Um coração desprovido de amor. Um anjo caído. Uma flor sem perfume. Um vaga-lume sem luz." Acho que tu és completamente o contrário. Tu tens tanto amor no coração e tanta luz, vontade de voar, etc dentro de ti.

Amei o texto!