06/11/2009

Pacto Com os Anjos - Continuação


2. Meu amigo Charlie

Minha mãe sempre me dizia que eu era muito especial, e, é obvio que eu não levava isso literalmente a sério. Quando eu tinha por volta de uns 10 anos, eu conheci um garoto de rua. Bom, não era bem de rua, ele tinha uma casa, está bem, era mais um depósito abandonado onde ele morava, mas isso não importa, não agora.
Quando conheci Charlie, eu estava saindo da escola. Minha mãe tinha de me pegar lá as 5 e meia, o que nunca acontecia. Charlie estava sentado na calçada, cutucando seus velhos tênis, e resmungando do novo buraco que havia aberto neles. Minha curiosidade me levou a perguntar a ele, como aquilo havia acontecido. Sentei-me ao lado dele, como se eu não quisesse nada, a não ser descansar. Aparentemente, ele nem havia percebido minha presença, pois levou um susto quando comecei a conversa:
- Olá. – eu disse, num tom despreocupado. Ele não respondeu. Não deixei que isso me afetasse. Ele podia estar pensando que eu era um riquinho qualquer, o qual queria apenas incomodá-lo, ou rir da cara dele, por vê-lo naquele estado. – Como conseguiu esses rasgões enormes nos seus tênis?
- Está falando comigo? – disse ele, impressionado, ou no mínimo, apavorado.
- Isso é ruim? – perguntei – você parece meio sozinho e abatido. Não queria incomodar, só fazer-lhe companhia.
- Bom, se for assim, eu rasguei-o correndo de um bando de valentões. Eles queriam roubar o único dinheiro que ganhei com esmolas nos últimos tempos.
- Esmola?
- Não pareço ter muito mais opções além dessas, pareço? – disse-me desanimado.
- É, esqueço que não é gente grande ainda.
- Mas eu sou bem alto pra minha idade!
Nós dois rimos.
- Que idade seria essa?
- 10 anos. E você, que idade tem?
- 10 anos também. – sorri-lhe.
Foi ai que minha mãe estacionou, olhando-me preocupada, deveria estar se remoendo por dentro, por se atrasar.
- Bom, tenho que ir. – disse-lhe, um tanto quanto desanimado – estará aqui amanhã?
- Se os valentões não me pegarem até lá...
Quando entrei no carro, minha mãe em abraçou, tentando se desculpar, ela sempre fazia isso, tentando me chantagear emocionalmente, eu acho.
- Meu pobre bebê, mamãe sente tanto, mas não pude sair do escritório no horário hoje, o Dr. Albert teve mais consultas do que Papai Noel tem de cartas.
- Eu estou bem mamãe. – Ahhhhh não, lá vem ela com o beijo babado na bochecha de novo – é serio, eu até fiz um amigo novo, eu espero.
- É mesmo? E onde ele está? A mamãe dele já o buscou?
- Ele está bem ali mãe – quando me virei para indicá-lo, ele já havia partido. Dei de ombros.
Ao chegarmos em casa, minha mãe tentou me agradar de todos os jeito. Parecia que havia algo de errado, que ela não queria em contar até que me preparasse. Ela fez meu prato favorito, arroz com bife acebolado, e depois, deixou-me uma barra de chocolate na cama, e do lado dela, uma enorme bola empacotada. Mas o meu aniversário seria daqui a dois meses. Ela pirou?

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