Pacto com os anjos - Continuação
Foi então, que algo aconteceu. Alguém apareceu, chamando minha atenção.
Um rapaz arrogante, travestido com calças preta de couro, sapatos pretos reluzentes, uma camiseta branca e uma jaqueta, também de couro. Seu cabelo era um topete, praticamente só gel. Usava óculos escuros.
De repente, os sentimentos desapareceram. Apenas um restou. O mais odioso deles. A inveja. Quão tola era minha situação. De um choramingo a uma inveja crescente. Ao menos a dor se fora. Ou parecia ter se ido.
O rapaz me olhou, com uma expressão de nojo. Que arrogância, que petulância, quem ele pensava que era? E por que todos esses sentimentos ruins vieram despertar-se nesta hora? Seria um refúgio do sofrimento? Uma anestesia? Seria o acaso?
- Que foi, verme? Por que tá me olhando desse jeito? Perdeu alguma coisa?- interrogou-me ele. - 'Cê tava chorando é? Hahahahahahaha!!!!!- rui ele, o que mais parecia um grunhido. - Que idiota!
- Não é de sua conta - desprezei-o.
- Uau! Um filhote de rato desafiando um gato. Quem diria!
- Não desafiei ninguém. deixe-me em paz, sim? - de novo um sentimento amargo.
- Ou o quê? Vai chamar a sua mamãe? - envenenou-me ele. Efetivamente, posso dizer.
Ódio. Nunca sentira tantos sentimentos desprezíveis ao mesmo tempo. Como pode? As lágrimas voltaram a me afetar os olhos. Raiva.
- Ok, garoto. Você parece mimadinho de mais pro meu gosto. Isso tem que mudar. Que tal parar de chorar e começar a agir como um de... Homem.
- Por que você me ajudaria? - indaguei.
- Quem disse que estou? - um largo sorriso expandiu-se em seu rosto.
Um vento forte soprou em direção a oeste. O rapaz virou-se para a direção contrária, parecia até buscar a fonte do acontecimento. Virei-me também. E lá longe, eu o vi. Charlie. Achei que não o veria naquela tarde. Enganei-me?
- O que fazes aqui Rex? - perguntou ele - Estas sozinho hoje. Mas eu não. - de trás de latas de lixo, 3 garotos maltrapilhos surgiram, e se postaram atrás de Charlie.
- Idiota insolente. 4 infelizes contra mim?- rugiu ele. - que venham.
- Você sabe as consequenciais, Rex. - disse um dos garotos maltrapilhos.
E todos entoaram juntos:
- Você será banido!
Banido? O que queria dizer tudo aquilo? 4 garotos, embora muito magros, podiam derrubar um delinquente, de uma maneira fácil. Seria ele tão arrogante a ponto de acarditar que os venceria? Ou tão burro?
Ele olhou enfurecido para eles. Apontou para Charlie e disse:
- Da proxima, você não me escapa. Ele vai saber. Ele vai saber!- virou-se de costas e começou a correr.
Foi bem dramático. Não havia necessidade de tudo aquilo. Os garotos não pareciam querer arranjar confusão. Mesmo assim, ele não ousou olhar para trás.
- Você está bem? - perguntou-me Charlie
- Não pareço bem?- estranhei - Até parece que ele ía me fazer mal maior do que me dar um soco pelas respostas mal-criadas.
Todos os garotos riram nervosamente. Uma situação bizarra, no mínimo. Meu pai estacionou. De início não o vi. Ainda estava um pouco atordoado pela situação. E foi ai que ele começou a buzinar. Olhei de relance, por cima de meu ombro, e tive um vislumbre encantador. Minha mãe estava sentada no banco ao lado dele. Ela abanou para mim, com um risinho. Despedi-me rapidamente dos garotos, e corri para o carro. Fiz questão de abrir a porta do banco da frente, para beijá-la no rosto, demoradamente. Sentei-me no banco comportadamente. Quando voltei a olhar para a rua, os garotos já haviam partido.
Chegando em casa não larguei do braço de minha mãe até a hora de dormir. Ela parecia cansada, mas não tive pena, estava me cobrando por sua ausência.
Nenhum comentário:
Postar um comentário